quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CRONOLOGIA DA SEGUNDA GUERRA


1939

1940

1941


Janeiro

* 05 de Janeiro - Tropas australianas capturam Bardia, na Líbia.
* 10 de Janeiro - Batalha naval entre britânicos e italianos no estreito de Messina, na Sicília.
* 19 de Janeiro - Início da ofensiva britânica na Etiópia, Eritreia e na África.




Fevereiro

Março

* 22 de Março - Aviões alemães metralham o navio mercante brasileiro Taubaté, no Mediterrâneo, matando um tripulante. É a primeira baixa brasileira.

Abril

Maio

Junho

Julho

Agosto

Setembro

Outubro

Novembro

Dezembro

1942

1943

1944

1945

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Memórias do Marechal Mascarenhas de Moraes


Volume 2. Bibliex
XXIII - Preliminares da Campanha
documentação básica

(pg.121)

 Para elaborar estas memórias na parte referente à Campanha da Itália, recorri às minhas observações pessoais, já amadurecidas pelo tempo transcorrido, e a dois documentos de importância fundamental: o primeiro é o livro A FEB pelo seu comandante, no qual, sob minha orientação e imediata direção, uma plêiade de oficiais se irmanou no propósito de, em seu relato, servir à fidelidade histórica; o segundo, as notas constantes do meu Diário de Campanha, já liberadas a divulgação.

Em A FEB pelo seu comandante, relatei, sem perder a perspectiva do conjunto, as operações militares.

Nestas memórias cabe-me fazer uma síntese interpretativa da FEB. Destacarei ainda fatos que, permanecendo restritos ao meu conhecimento pessoal, ou a limitado número de outros chefes, brasileiros ou americanos, muito influíram na conduta do comando da FEB, repercutindo, em consequência, no curso das operações.

Ao registrar meus sentimentos e impressões, terei uma única preocupação: a interpretação fiel e autêntica dos fatos históricos de que participei como principal responsável pelo emprego da divisão expedicionária.

Importantes acontecimentos da Campanha da Itália - preparação no Brasil, emprego na Itália, vitorioso regresso - já foram tratados, no aspecto técnico-militar, pelo referido livro, editado em 1947, saindo sua segunda edição, revista e aumentada em 1960. Nestas memórias, apresentando alguns aspectos inéditos daquela rude campanha, desvendo atitudes, propósitos e decisões que, mesmo admitindo algumas frustrações e reveses, também enaltecem a eloquente sucessão de vitórias, sensacionais e espetaculares, conquistadas pela intrepidez e valor de meus bravos comandados.

Prenúncios de sacrífico e glórias - De todos os assuntos tratados nestas Memórias, o relato da Campanha da Itália (1944-1945) é o que mais sensibiliza e edifica porque, nessa pugna

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heroica, o sangue generoso dos brasileiros foi derramado em defesa da honra nacional, da dignidade humana e da democracia.

Quase duas décadas de meditações, em que a serenidade e a prudência primaram no conceituar e comentar os fatos da gloriosa Campanha, permitem-me emprestar à narração a imprescindível fidelidade histórica exigida pelo delicado assunto. É que estou iniciando este capítulo no dia 21 de fevereiro de 1962 - décimo sétimo aniversário da vitória de Monte Castelo - tendo bem viva a lembrança dos acontecimentos desenrolados na Itália, sob minhas vistas e comando direto.

Em todos os Exércitos, a política doméstica do campo de batalha gera lendas que exaltam ou deprimem o moral do combatente. Acima dessas flutuações, porém, imperam a continência e o exemplo de chefes capazes que conduzem os subordinados à vitória, mesmo ao preço dos maiores sacrifícios. A êsse respeito há na História do Brasil numerosos exemplos que muita a engrandecem.

Com a FEB, vai o Exército da República terçar armas, em guerra internacional, como há cerca de um século fizeram o Exército e a Marinha do Império nas Campanhas da Cisplatina e do Paraguai. Nesse longo interregno de paz, do Império à República fortaleceu suas convicções democráticas, sempre avêssas a tôdas as formas do infrene caudilhismo dos povos hispano-americanos. Nossa diplomacia, cultivando a convivência amistosa, soube superar todos os litígios internacionais, quer negociando diretamente, quer aceitando o arbitramento como solução pacífica das possíveis divergências.

Entre os propósitos que levaram o Brasil a tomar parte na Segunda Guerra Mundial, destacam-se o de revidar a agressão nazi-fascista à nossa navegação costeira e o de libertar povos submetidos à sanha de regimes totalitários e desumanos. Marchando ao lado das fôrças aliadas, coube ao Exército de Caxias, na segunda conflagração mundial, a honra de ser o representante do único povo sul-americano que lutou no continente europeu, participando efetivamente de operações de combate.

A posição geográfica do Brasil, já o disse anteriormente, predestina-o a desempenhar papel de relêvo em qualquer conflito internacional. Sendo geograficamente um dos extremos da ponte estratégica Natal-Dacar, o Brasil começou, na última Grande Guerra, por ceder bases aéreas do Nordeste à aviação norte-americana. Realizava-se assim o trampolim da vitória.

Seguiu-se o emprêgo efetivo do Exército e da Aeronáutica do Brasil no teatro de operações da Itália, secundados pela ação da 

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Prepondera contudo a falta de consistência efetiva da disciplina e do estudo psicológico do expedicionário, que, no território nacional, recebera os impactos da propaganda nazista, mal contida pelas autoridades militares e civis. Isto a despeito de se reconhecer que o homem brasileiro, se instruído militarmente, e dotado de armamento e equipamento apropriados, constitui um bom soldado, apto para qualquer missão.

Como complemento a êstes comentários, transcrevo o excerto do livro A FEB Pelo Seu Comandante, sob o título:
"Perspectivas Sombrias"
"Os expedicionários brasileiros, mal preparados psicológicamente, sofreram e venceram, mais que quaisquer outros desde a travessia do Atlântico até a frente de batalha, situações difíceis e vexatórias, que se sucediam continuamente diante do desconhecido da guerra.


As autoridades americanas se decepcionaram com o insuficiente estado sanitário da primeira tropa brasileira desembarcada em território italiano e continuaram a se decepcionar com a imprestabilidade dos uniformes, agasalhos e calçados dos brasileiros, socorridos em tempo pela ação pessoal do General Mark Clark, comandante do V Exército.


Era sob êsse vexame injustificável que a tropa brasileira inciaria, em setembro de 1944, suas operações de guerra: armamentos e munição americanos, calçados e agasalhos americanos, alimentação, quase tôda americana, pois até o café, cujo grão provinha do Brasil, não podia ser aproveitado por falta de aparelhagem para torrar e moer.


Relativamente aos uniformes, convém salientar que além da má qualidade e péssimo acabamento - impróprios para temperaturas tão baixas - tinham o inconveniente de muito se assemelharem, pela côr, aos do inimigo, provocando perigosas confusões entre os combatentes, em particular para a aviação, os observadores de artilharia e para nossos aliados, os quais no ardor do combate, poderiam tomar-nos como adversários."

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Criação da FEB - Em 22 de agosto de 1944, o Brasil declarou guerra à Alemanha e a Itália. Repetidos e traiçoeiros ataques à nossa Marinha Mercante, em águas territoriais, conduziram o Govêrno Brasileiro a essa histórica decisão.


Com êsse ato, o Presidente Getúlio Vargas - inteiramente favorável à causa das nações democráticas - e seu esclarecido ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha, atenderam à onda de indignação popular e às tradições pan-americanistas da nação brasileira.


Fiel aos compromissos internacionais assumidos, o Brasil participou, durante a Segunda Guerra Mundial, de diversas conferências internacionais: Lima, em setembro de 1939; Panamá, em outubro de 1939; Havana em julho de 1940; e Rio de Janeiro em 1942.


Na Conferência de Havana foi deliberado que:


"Todo atentado de Estado não americano contra a integridade ou a inviolabilidade do território, contra a soberania ou independência política de um Estado americano, será considerado como ato de  agressão contra os Estados que firmam esta declaração."


Enquanto os alemães e italianos mantiveram a ocupação do Norte da África, o Brasil, dada sua posição geográfica, reforçou os efetivos militares do Nordeste e zonas sensíveis do litoral, ao mesmo tempo que a Marinha e a Força Aérea entraram em intenso serviço de patrulhamento das costas e comboios.


Não havia ligação terrestre entre o Nordeste e o Rio de Janeiro, então capital do país. Só depois dêsse conflito mundial foi concluída a rodovia de primeira classe que faz a ligação terrestre entre o Nordeste e o Leste do país. Também estava em vias conclusão a rodovia que faria essa ligação pela orla litorânea. Conclui-se, pois, que o provável teatro de operações do Nordeste naquela época, estava ilhado, sem comunicações terrestres com o restante do país, a exigir extraordinário esfôrço da Força Aérea e das Marinhas de Guerra e Mercante, com grave risco de ataques submarinos.


Em novembro de 1942, os aliados ocuparam o Norte da África, desaparecendo praticamente a ameaça de desembarque alemão em nosso litoral.



Afastado o perigo de invasão do território brasileiro por tropas alemãs procedentes da África, o governo decidiu organizar uma força expedicionária destinada a combater fora do continente

(pg.126) 


"onde e quando for necessário de acôrdo com os nossos aliados". Consta ainda do despacho presidencial.

"Esta operação está, porém, adstrita ao recebimento do material que necessitamos para o aparelhamento, tanto da Força Expedicionária como da que deve ficar guarnecendo o nosso litoral."

Daí a organização da Força Expedicionária Brasileira, instrumento militar destinado a desagravar ofensas à nossa soberania e a cooperar com as Nações Unidas na missão de destruir o inimigo comum.

Consulta para comandar uma divisão do Corpo Expedicionário - Comandava eu a 2ª Região Militar, em São Paulo, quando em certa reunião festiva na residência do Major R-2, Reinaldo Ramos Saldanha da Gama, professor da Universidade de São Paulo, êste inopinadamente solicitou-me participar da primeira tropa expedicionária, que para a Europa se deslocaria sob meu comando.

Respondi-lhe não poder contrair compromissos sôbre assunto que eu ignorava e que, por certo, não me atingiria, dada a relevância da missão.

Além disso, acrescentei, a minha idade - 60 anos - constituiria fator negativo para emprêsa de tal envergadura.

Confesso que me chocou deveras o gesto intempestivo do nobre camarada exaltado talvez por notícias levianas.

Passados cerca de dois meses, durante os quais ninguém mais me falara sôbre êsse assunto, recebo em minha residência na capital paulita, a 10 de agôsto de 1943, o seguinte radiograma cifrado, do General Dutra, ministro da Guerra:

" 25/HI - Urgente - 9 - VIII - 1943 - Cifrado General Mascarenhas São Paulo.
Consulto prezado camarada se aceita amplo comando de uma das divisões que constituirão Corpo Expedicionário pt Impõe-se resposta urgente porque caso afirmativo fará estágio Estado Unidos pt
a) General Eurico Dutra - Ministro da Guerra."

Ali mesmo, em meu gabinete de trabalho, redigi com o oficial de meu estado-maior, Major Sousa Júnior, a resposta que, pela simplicidade, deveria ter escandalizado o próprio ministro. Ei-la: 

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"General Dutra - Rio - Urgentíssimo - de São Paulo - 20-40 - 10 - VIII 1943 - 17,15.
345 - Muito honrado e com satisfação respondo afirmativamente consulta Vossa Excelência acaba fazer-me vg em rádio 25/HI.
a) General Mascarenhas de Moraes - Comandante 2ª  RM "

Despedi-me do Major Sousa Júnior e em seguida, confidencialmente, relatei a minha mulher o que ali se havia passado. E serenamente como sempre, teve ela as seguinte palavras:


- Estou de pleno acôrdo.


Dias depois, por um telefonema matinal do General Dutra, soube que o Presidente Getúlio Vargas escolheu pessoalmente o meu nome, entre os de outros generais, para o comando da 1ª Divisão Expedicionária (1ª DIE).


Tendo dêsse modo se confirmado o misterioso prognóstico do Major Saldanha, decidi atender ao seu louvável pedido: foi êle um dos primeiros a serem convidados a tomar parte na Campanha da Itália.


A 17 de agôsto de 1943 deixei o comando da 2ª Região Militar, embarcando para o Rio, onde aguardei ordens.


Aproveitei a ausência do Ministro Dutra, que visitava os Estados Unidos, para, no maior sigilo, internar-me em hospital particular. Acompanhado apenas de minha espôsa, submeti-me com êxito, a delicada intervenção cirúrgica, não divulgada, felizmente, pelo noticiário agitado da imprensa.


Organização da FEB - Elementos constitutivos - A FEB constituída pela 1ª DIE (1ª Divisão de Infataria Expedicionária) e de Órgãos Não-Divisionários, teve sua estrutura fixada em 9 de agôsto de 1943, pela portaria ministerial n° 47-44, publicada em boletim reservado de 13 do mesmo mês.


Integravam a 1ª DIE os seguintes elementos:


a) Comandante, general-de-divisão;

b) Quartel-General, constituído do Estado-Maior Geral, Estado-Maior Especial, Tropa Especial;
c) Infantaria Divisionária com o seu comandante, general-de-brigada, e 3 regimentos de infantaria;
d) Artilharia Divisionária com o seu comandante, general-de-brigada e 4 grupos de artilharia (3 de calibre 105 e 1 calibre 155);

(pg.128) 



e) Esquadrilha de Aviação (ligação e observação);
f) Batalhão de Engenharia;
g) Batalhão de Saúde;
h) Esquadrão de Reconhecimento;
i) Companhia de Comunicações (chamada então de Transmissões)

Ainda integrava a divisão uma Tropa Especial, assim constituída:

Comando do QG e da Tropa Especial;
Destacamento de Saúde;
Companhia do Quartel-General;
Companhia de Manutenção;
Pelotão de Sepultamento;
Pelotão de Polícia e;
Banda de Música.

Os Órgãos Não-Divisionários, no teatro de operações da Itália, constituíram uma peculiaridade da Força Expedicionária Brasileira. Dispostos em grande profundidade, que aumentou com as operações ofensivas de 1945, tinham êles a seguinte composição:

a) Comandante da FEB, general-de-divisão, acumulando com o de comandante da 1ª DIE;
b) Inspetor Geral da FEB, general-de-brigada;
c) Serviço de Saúde da FEB;
d) Agência do Banco do Brasil;
e) Pagadoria Fixa;
f) Seção Brasileira de Base;
g) Depósito de Intendência;
h) Serviço Postal;
i) Serviço de Justiça;
j) Depósito do Pessoal (destinado a adestrar a tropa e recompletar os seus quadros)

A FEB operou na Itália com o efetivo de cêrca de 25.000 homens, entre os quais contam-se 4 generais e 1.535 oficiais. Nesse total não estão computados: 13 oficiais da Aeronáutica, que serviram na Esquadrilha de Ligação e Observação da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ªDIE); 15 oficiais de ativa

(pg.129)

 e da reserva destacados para a Justiça Militar da FEB; 26 capelães militares (oficiais honorários); 28 funcionários do Banco do Brasil; 67 enfermeiras arvoradas no pôsto de 2° tenente, na Itália, pelo comandante da FEB e confirmadas posteriormente neste pôsto.


Dificuldades iniciais -  Certas decisões de âmbito governamental, relacionadas direta ou indiretamente com a criação da FEB, convenceram-me de que a vontade do Presidente Vargas passara a prevalecer nos rumos de nossa política exterior. Tal prevalecimento, todavia, não se processou com a desejável plenitude, porquanto permaneceram, em seus postos de administração pública, alguns auxiliares imediatos do chefe do Govêrno, sabidamente contrários à participação do Brasil na guerra, ao lado das democracias 1.


Êsse inconformismo ideológico já vinha, há anos, criando ambiente propício à causa nazi-fascista, em substancial desserviço ao curso da estratégia política do nosso Govêrno.


Alternativas de entusiasmo e desânimo, observadas na organização e preparação da tropa expedicionária, demostraram a diversidade de ideologia política no grupo dirigente de nosso país e, mesmo, por vêzes refletiam a fraqueza da liderança pela capacidade de remover numerosos obstáculos, quase sempre decorrentes do próprio estado de guerra. Uma das consequências dessa anomalia na esfera governamental foi o país ressentir-se da indispensável preparação psicológica para o conflito que, célere e dominador, se alastrara por todo os continentes.


Assim, é que, ao invés de nossas autoridades buscarem o robustecimento cívico de nossa gente e cultivarem simpatia popular pela causa das nações democráticas, quedaram-se em condenável complacência ante o movimento de desagregação empreendido pelos simpatizantes e adeptos da causa totalitária. Elementos do quinta-colunismo indígena, instalados até em postos importantes da vida nacional, tentaram entravar, se não evitar a formação de um estado de alma que se fizera necessário criar a desenvolver face aos impactos da guerra contemporânea. Usaram êles dos mais diversificados processos para impedir que tropas brasileiras viessem a combater os exércitos totalitários da Europa. Era de ver-se, então, o desfaçamento dos agentes do quinta-colunismo não apenas entregues ao torpe mister de avisar ao submarino tedesco as saídas de navios mercantes de nossos portos, senão também empenhados em tirar proveito do comodismo e egoísmo das classes favorecidas, bem como a ignorância e descontentamento


  (pg.130)


das camadas mais humildes de nossa população. Sôbre explorarem certos efeitos desalentadores da guerra, tais como o racionamento de gasolina, a ameaça submarina na travessia oceânica do contingente expedicionário, a alta dos preços dos gêneros de primeira necessidade, êsses agentes desencadearam insidiosa campanha de descrédito às fôrças e pessoas que, para desagravo da ofensa que tanto indignara o povo, queriam realmente lutar ao lado das Nações Unidas.


Tais fatores dissociativos prejudicaram profundamente a mobilização nacional e afetaram a própria infra-estrutura febiana.


Existiram, todavia, outros obstáculos por vencer: as grandes dificuldades de organização do contingente expedicionário, segundo os moldes norte-americanos. Tendo eu aceito, sem tergiversar nem impor qualquer condição, o encargo - muito honroso de comandar a Divisão Expedicionária - teria de superar êsses obstáculos para da cabal desempenho à missão recebida.


Do chefe do Govêrno recebi todo o apoio, mas tive minha ação entravada por alguns de seus auxiliares imediatos, simpatizantes da causa totalitária. Ao invés de colaborarem no sentido de mobilização geral do país, agiam sub-repticiamente, dificultando a organização da FEB, no vão desígnio de impedir que tropas brasileiras fôssem combater os nazi-fascistas, de que eram simpatizantes.


O país não teve preparação psicológica adequada. Estivessem as autoridades ideològicamente unificadas, ao invés de divididas, mais simples e rápida seria a solução dos problemas resultantes da nova organização militar, nos moldes americanos; do suprimento dos novos armamentos; da confecção de uniformes apropriados ao clima frígido em que a FEB foi combater; da seleção do pessoal, e da concentração da tropa expedicionária no Rio de Janeiro, visto inicialmente se encontrar disseminada por cinco Estados - Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Guanabara e Mato Grosso -, dificultando, se não impedindo, minha ação de comando.


A seleção do pessoal merece, pela relevância do assunto algumas considerações.


O potencial humano representa o fator crítico por excelência do esfôrço de guerra de um país. O homem continua sendo arma fundamental. A guerra moderna, baseada na técnica e na especialização, exige dêle qualidades físicas, intelectuais e morais, capacitando-o ao emprêgo judicioso do armamento e de outros engenhos bélicos. Daí a seleção minuciosa a que é submetido, 


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transformando-o no maior patrimônio das Fôrças Armadas. Verdadeiro, pois, é afirmar que o povo é a grande riqueza de uma nação, nêle se baseando a sua segurança e integridade.


O pessoal que integrou a FEB não foi submetido a rigorosa seleção física e neuropsiquiátrica. Mais resiste que robusto, o brasileiro, a despeito das imperfeições da seleção, adaptou-se ràpidamente à mudança de meio e às fadigas da campanha.


As Fôrças Armadas americanas submeteram seus homens a rigorosa seleção física e intelectual, encontrando elevada percentagem dos que estavam abaixo do padrão prefixado.


Não tendo sido selecionado com tanto rigor, o soldado brasileiro, em grande parte oriundo do meio rural, não apresentando características físicas apuradas, satisfez contudo às necessidades militares da campanha por sua rusticidade e engenhosa capacidade de adaptação. Mesmo com estas restrições - que a ciência e boas administrações sanarão no futuro -, o soldado brasileiro constitui a maior riqueza da Nação e o mais valioso patrimônio das Fôrças Armadas.


Os derradeiros meses de 1943 foram vividos pela divisão brasileira num ambiente de transformações de efetivos e de seleção física. Contudo, ao encerrar-se o ano,  a organização da FEB permanecia em fase embrionária.


Viagem ao teatro de operações do Mediterrâneo - (De 6 a 30 de dezembro de 1943) - A 30 de novembro de 1943 é designada a Comissão Militar, que, sob minha chefia, iria observar o teatro de operações do Mediterrâneo.


A 6 de dezembro, a referida Comissão, integrada pelo Major-General J.G. Ord, Tenente-Coronel J.D. Gillet, Major Roy P. Potts e Capitão Vernon A. Walters (americanos), General-de-brigada Anor Teixeira dos Santos, Coronel-Aviador Vasco Alvez Secco, Coronel Médico Dr. Emanuel Marques Pôrto, Tenente-Coronel I.E. Sebastião Augusto de Carvalho, Tenente-Coronel Ademar de Queirós, Tenente-Coronel-Aviador Lavanère-Wanderley, Major Aguinaldo José Sena Campos, Major Antônio Henrique de Almeida Morais, Major Luís Gomes Pinheiro, Major-Aviador Rubem Canabarro Lucas, Major-Aviador Ari Presser Bello e Capitão Paulo Ferreira Pará, parte do Rio de Janeiro para Natal com destino a África e à Itália, onde deverá estabelecer a primeira ligação de comando, observar o campo de batalha e tomar contato com os problemas da campanha.


No dia seguinte, 7, às 23 horas, em um quadrimotor Liberator, partimos de Natal rumo a Dacar, aonde chegamos às


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10h50m do dia 8, aterrando na pista metálica da Base Americana de Eknes Field. Fomos recebidos pelo respectivo Coronel-Comandante.


A comitiva instalou-se na própria base. A tarde visitamos Dacar, situada em um promontório, distante 30 km.


No dia 9, as 07:10, prosseguimos viagem rumo a Tindouf, localidade situada no extremo sudoeste argelino e próxima da Costa do Ouro. Atravessamos a parte oeste do grande deserto do Saara que constitui a Mauritânia. Chegamos a Tindouf depois de quatro horas e meia de viagem, em pleno deserto, sob vento tão frio que nos obrigou a usar agasalhos.


Posteriormente, seguindo em busca da costa, rumamos para Casablanca, em virtude de não nos ter sido possível aterrar em Marrakech, no interior do Marrocos, devido ao congestionamento do aeroporto. Chegamos a Casablanca às 17h30m, depois de manobra difícil, dado o mau estado da pista.


Fomos recebidos pelo comandante da base, inúmeros oficiais e uma guarda de honra composta por elementos da polícia americana. Após a revista à tropa, seguimos para o centro da cidade e hospedamo-nos num palacete mourisco.


Em Casablanca incorporou-se à comitiva o Jornalista Barreto Leite, dos Diários Associados, que viera da Itália para êsse fim.


Às 10h45m do dia 10 partimos para Argel, no mesmo avião que havíamos tomado em Natal. Sobrevoamos a cidade de Rabat e do ar pudemos concluir da suntuosidade do palácio do sultão.


Afastamo-nos da costa do Marrocos Espanhol para depois tomarmos a direção leste e entrarmos no Mediterrâneo. De um lado, o Continente Negro, e do outro, as terras da Espanha.


Finalmente avistamos o majestoso penhasco de Gibraltar, sua fortaleza e, embaixo o pôrto. Do outro lado, envolvida em densa neblina, Ceuta.


Próximo a Orã, avistamos o primeiro comboio, bem protegido por balões e navios de guerra, rumando para leste. Às 15 horas pousamos no aeroporto de Argel.


Chovia copiosamente. Aguardava-nos uma impecável guarda de honra, composta de banda de música e de um contingente americano, um contingente inglês, bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e da Inglaterra.


A banda executou os hinos nacionais das três nações.


Após a revista, rumamos, de automóvel, para o centro da cidade, onde fomos alojados em um palecete particular, e os demais membros da comissão, no Hotel Aleti.


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Estiveram presentes ao nosso desembarque o Dr. Leitão da Cunha, nosso ministro do Norte da África, e altas autoridades militares do QG Aliado.


Em Argel passamos quatro dias em visitas a autoridades e órgãos militares.


Visitamos alio o General Eisenhower, Comandante do teatro de Operações do Mediterrâneo, em seu quartel-general, com quem mantivemos cordial palestra, tendo êste chefe militar nos prestado rápidas informações sôbre as operações na Itália.


Visitamos o General Giraud, francês, em seu quartel-general. Em rápida palestra, referiu-se à ação das tropas francesas na conquista da Córsega e em seguida, como antigo prisioneiro, comentou sua espetacular fuga par a Suíça e dificuldades em vencer a vigilância cerrada da polícia alemã.


Fomos homenageados com almoços e jantares oferecidos pelo Ministro Leitão da Cunha, General Giraud e chefe do estado-maior do General Eisenhower.


Visitamos, além do estado-maior do comando do Mediterrâneo, alguns centros de instrução.


Às 09h50m do dia 15 seguimos de avião para Orã, chegando ali às 11h30m.


Em Orã, visitamos várias oficinas de reparo e recuperação de veículos, e depósitos de material, podendo, nesta oportunidade avaliar a grandiosidade do esforço de guerra americano.


Visitamos, também, vários centros de preparação de tropas americanas e francesas.


De um cruzador americano assistimos a interessante exercício de tiro de artilharia, levado a efeito por navios de guerra contra objetivos terrestres.


Foi-nos oferecido, pelo comandante




  1. Insinuação a Góis Monteiro, Quinta Colunismo.